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O Resultado da Bambuí Experience

A Bambuí fez uma entrevista com o Humberto Furlanetto  para saber todos os detalhes de como foi a experiência até o Monte Concágua. As curiosidades, sentimentos e todas as lições tiradas de lá. Dá uma conferida no que ele achou:

 

– Qual foi o melhor momento da viagem?

 

É muito difícil definir um melhor momento entre tantos. Cada instante traz uma alegria e uma nova preocupação. A partida é um momento mágico pois estamos repletos de euforia mas ao mesmo tempo deixamos nossas famílias para trás. Os primeiros passos na montanha são extremamente revigorantes pois passa na nossa cabeça todo o esforço realizado para estar ali. Ao mesmo tempo, diante dos nossos olhos, se revela uma montanha enorme a ser vencida. O cume seria talvez o momento de maior alegria, afinal, após 16 horas de caminhada você cumpre o objetivo. Nem tudo são flores pois mesmo no cume, após horas e horas de caminhada, você se recorda que tudo que sobre precisa descer e portanto ainda restam muitas horas de descida antes do merecido descanso. Infelizmente, no Aconcágua, não atingi o cume mas relato isso baseado na experiência do Mt. Elbrus (5642m), o ponto mais alto da Europa e um dos 7 Cumes. Por incrível que pareça, tem um único momento que não nos trás nada de ruim e talvez seja o melhor de todos. Trata-se do abraços da família quando chegamos. Nessa hora, todas as dificuldades ficam esquecidas e a saudade da o lugar a uma alegria inenarrável.

 

– Qual foi o momento mais difícil da viagem?

 

No Aconcágua, tivemos uma série de difíceis momentos. Vou citar dois que foram determinantes inclusive para minha desistência do projeto. Desistência não, adiamento! No dia seguinte a chegada a Plaza de Mulas (4.200m), um dos integrantes da nossa equipe e grande amigo sofreu um Edema Pulmonar Agudo que poderia ter lhe custado a vida. Felizmente, a equipe de apoio da montanha conseguiu identificar e prestar todo o socorro necessário e nosso amigo retornou bem para casa. Essa notícia naturalmente impressionou a todos e levantou uma preocupação até então não muito viva. Será que estávamos fazendo a coisa certa, deixando nossas famílias para arriscar a vida em um projeto que para muitos é completamente sem sentido? No dia seguinte, o grupo de 8 foi reduzido a 7 e até o final do dia ficaria reduzido a 3 pessoas. Nesse dia, ajustamos o cronograma e substituímos a subida do Cerro Bonette pela subida ao acampamento de altura Plaza Canada a aproximadamente 5.100m. foi um dia pesado pois além da carga normal tivemos que subir água para os dias que seguiriam. A exaustão somada as dúvidas geradas pelo incidente e a rotina massante da montanha ceifaram o desejo de outros três amigos que cogitavam desistir do projeto. Nesse dia, durante o retorno para Plaza de Mulas recebemos por rádio a notícia de que um montanhista havia falecido na tentativa de atingir o cume. O resgate desse corpo pode ser visto no Canal OFF, no terceiro episódio da série 7 Cumes – Aconcágua. Essa notícia caiu como uma bomba e levou três grandes amigos a desistirem. Esse foi o pior momento pois tinha plena consciência que, após a desistência deles, não teria motivação para continuar seguindo mesmo tendo ao meu lado um casal maravilhoso e pelo qual tenho muito apreço. Um dia após deixei a montanha e esse casal, meus padrinhos de casamento, para que os mesmos seguissem.

 

– O que te fez encarar essa aventura?

 

Esse é o meu momento. Durante as caminhadas, muitas vezes fico 8 horas sem conversar, apenas refletindo. É um momento no qual consigo equalizar todos meus sentimentos.

 

– O que você aprendeu durante os dias que esteve no Monte Aconcágua?

 

As lições são muitas. Vimos e chegamos a andar lado a lado com um grupo de ex combatentes militares multilados por guerras. Distâncias de 100m são percorridas em horas. A montanha testa nossa paciência e nos ensina que não podemos ter tudo que queremos sempre. Lá, ao pé dessas montanhas gigantescas, nos sentimos fortes a cada conquista ao mesmo tempo que nos sentimos ínfimos diante dela e dos efeitos da natureza. Nevascas, avalanches, ventos são algumas manifestações da natureza que revelam o quão insignificante nos somos.

 

– E por fim, qual foi o momento mais especial da viagem que ficará marcado em sua memória pra vida toda?

 

Ao chegar em Plaza Canada, sentei em uma pedra onde depositamos os garrafões d´água. Estava bem fisicamente mas muito triste pela partida de um membro da equipe e pelas decisão que outros três estavam prestes a tomar. Lá, consegui ver a montanha sob uma perspectiva diferente. Enxerguei o esforço de muitos que lá estavam ou chegavam exaustos. Tirei do bolso uma foto da minha esposa e do meu filho vestindo um sapato meu com a maior pode de montanhista. Meu filho tinha na época 8 meses. Chorei muito nessa hora. Senti uma saudade imensurável dos dois. Ambos me apoiaram no projeto por mais que isso muitas vezes não fosse exatamente o que eles queriam. Esse momento foi especial pois senti os dois sentados ao meu lado naquele momento.

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